Dimensionamento de pessoal de enfermagem em centro cirúrgico

O Centro Cirúrgico (CC) constitui um dos setores mais complexos do hospital, em decorrência das peculiaridades do processo de trabalho, ligados, direta ou indiretamente, à produção das cirurgias.

Ao longo do tempo, os recursos humanos em CC representaram uma área extremamente sensível, contingencial e situacional e eram percebidos como um fator de produção de cirurgias, e não como protagonistas do processo de produção de cirurgias, recebendo, dessa forma, limitada atenção dos responsáveis pela administração do hospital.

Nos momentos atuais, apesar do reconhecimento da relevância da força de trabalho em CC. em virtude de diversos fatores, entre eles do avanço da tecnologia incorporado à cirurgia e dos processos e subprocessos de trabalho, percebem-se, ainda, desequilíbrios na distribuição dos profissionais, por categoria ocupacional e por instituição de saúde, quer pública ou privada. Infelizmente esses desequilíbrios representam uma utilização inadequada destes recursos que são raros, de custo elevado e, consequentemente, interferem, diretamente na segurança e na qualidade da assistência ao paciente cirúrgico.

Exaustivos estudos foram desenvolvidos ao longo dos anos, na tentativa de se estabelecer um método que se ajustasse às reais necessidades dos diversos serviços. Contudo, muitos métodos se mostraram insatisfatórios por considerarem todos os pacientes cirúrgicos como detentores do mesmo nível de atenção de enfermagem, não levando em consideração a gravidade dos mesmos, o tempo cirúrgico, o tempo de limpeza da sala de operação, a hora de assistência de enfermagem e a sua consequente influência na alocação de recursos humanos no CC.  A falta de parâmetros bem defi­nidos destinados à operacionalização do dimensionamento de pessoal de enfermagem, fazia com que este assunto se tornasse polêmico, causando falta de argumentação para as chefias de enfermagem diante da gerência do hospital.

Para uma reflexão sobre o Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em CC consideramos dois momentos temporais, no histórico desse tema: antes de 1998 e depois de 1998. Antes de 1998, encontramos especificamente em 1972, na literatura nacional, o trabalho pioneiro de Ribeiro, pesquisadora da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), ao propor o cálculo de pessoal para as unidades de internação por meio de critérios de assistência progressiva, com distribuição dos recursos humanos, de acordo com o nível de complexidade assistencial. Nos CC. sob o Ponto de vista de enfermagem, não cabia uma classi­ficação de pacientes, conforme os mesmos princípios dos adotados nas Unidades de Internação. Diante da inexistência de uma regulamentação sobre critérios mínimos para dimensionar o pessoal de enfermagem, O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), em sua Resolução nº189/1996, estabeleceu parâmetros para o quantitativo mínimo dos diferentes níveis de formação dos profissionais. Recomendava que para o dimensionamento se fundamentasse nas características relativas à instituição, ao serviço de enfermagem e à clientela. No entanto, essa Resolução limitou-se apenas ao paciente de unidade de internação hospitalar.

As argumentações relativas à necessidade de recursos humanos, apresentadas pelos enfermeiros, baseavam-se na subjetividade desses profissionais e careciam de fundamentação teórico-metodológica.

Depois de 1998. Gaidzinski, pesquisadora da EEUSP, desenvolveu uma equação matemática que permitiu dimensionar o quadro de pessoal de enfermagem por complexi­dade assistencial, conforme os critérios estabelecidos pela Resolução COFEN 189/1996. Dentro do CC. a equação podia ser utilizada para calcular o quantitativo de pessoal para a assistência de enfermagem na Recuperação Pós-Anestésica (RPA). Mas para os demais períodos cirúrgicos, como pré­-operatório imediato, transoperatório e pós-operatório imediato, ainda faltavam modelos objetivos para efetuar tal dimensionamento. A partir desse momento, observou-se um crescimento exponencial de pesquisas sobre o dimensiona­ mento do quadro de pessoal de enfermagem. Entretanto, para o CC. Centro de Material e Esterilização e Centro Obstétrico ainda era muito pequeno.

A partir de 2001, com a dissertação de mestrado defendi­da por Possari, discípulo de Gaidzinski, vem sendo suprida esta lacuna, com a proposta de horas de assistência de enfermagem por porte cirúrgico. Conforme se diferencia o porte cirúrgico, varia o número de horas de enfermagem des­pendidas ao paciente e, consequentemente, varia também a quantidade e a qualificação do pessoal de enfermagem envolvido. Complementa essa proposta, com sua tese de doutorado voltada ao dimensionamento de pessoal em um CC. especializado em cirurgias oncológicas. Esse estudo com a utilização das intervenções/atividades de enfermagem, contribuiu no delineamento de um instrumento que possibilita, com maior confiabilidade, quantificar a carga de trabalho da equipe de enfermagem. Parte desse referencial está regula­ mentado na Resolução 543/2017 do COFEN.

Com essa nova Resolução do COFEN, considerando a classificação da cirurgia, as horas de assistência segundo o por­te cirúrgico, o tempo de limpeza das salas de operação, o tempo de espera das cirurgias e a constante de Marinho calcula-se para o período transoperatório, o quantitativo de técnicos de enfermagem e de instrumentadores cirúrgicos. Os demais períodos cirúrgicos, segundo a Resolução do COFEN, se obtêm com determinações de sítios funcionais. Ela recomenda, para cada três salas cirúrgicas, um enfermeiro. A aplicação dessa metodologia possibilita ao enfermeiro argumentações relativas à necessidade de recursos humanos, com fundamentação teórico-metodológica.

Finalizamos essa reflexão com um pensamento de Jouclas, pesquisadora da EEUSP da década de 1960, que argumentava que ”a prática, caminhando junto à teoria , tem mos­trado o espaço do enfermeiro como determinante para a otimização da qualidade da assistência ao paciente em tratamento  cirúrgico”.

Por João Francisco Possari – Doutor em Gerencimento de Recursos Humanos em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EE- USP) e gerente de Enfermagem do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (lCESP). Possari também é autor de vários livros que abordam sobre Centro de Material e Esterilização, Assistência de Enfermagem, Processos de Esterilização e Centro Cirúrgico.
FONTE: REVISTA SOBECC COM VOCÊ NO BLOCO OPERATÓRIO
DATA : EDIÇÃO JAN-MAR/2018